A TV da sala de reunião sabe o que você mostra nela? ACR: como funciona e como checar na sua empresa
Muitas smart TVs trazem um recurso que reconhece o que está na tela e informa o fabricante. Um estudo de 2024 mostrou que, nos EUA, isso inclui o que chega por cabo HDMI, como a tela de um notebook. No Brasil, não encontramos nenhuma medição pública.
Em 30 segundos
- O que é: o ACR (reconhecimento automático de conteúdo) tira “impressões digitais” do que passa na tela e as envia a servidores do fabricante, que descobrem o que está sendo exibido.
- O que o estudo achou (Samsung e LG, EUA e Reino Unido): o ACR gerou tráfego também com a TV usada como tela por HDMI. Desligar o recurso no menu fez o contato com os servidores de ACR cessar.
- Na Justiça: o Texas processou cinco fabricantes em dez/2025. A Samsung (26/2/2026) e a LG (11/5/2026) fecharam acordo. Sony, Hisense e TCL seguiam em andamento nas fontes mais recentes que achamos. São alegações do estado.
- No Brasil: o estudo não testou. Guias brasileiros mostram os menus para desligar, mas ninguém publicou medição de TV vendida aqui.
- O que fazer: inventariar as TVs das salas, desligar o recurso, medir o tráfego no firewall e separar essas TVs da rede da empresa.
Nesta matéria: o que é · o que aconteceu · e no Brasil? · perguntas em aberto · visão executiva · como funciona por dentro · monitorar e bloquear no firewall · configuração e prevenção
O que é o ACR
ACR vem do inglês Automatic Content Recognition. Funciona como o aplicativo que descobre qual música está tocando, só que para vídeo: a TV registra trechos do que aparece na tela, transforma cada trecho em uma assinatura numérica (uma impressão digital, ou hash) e a envia ao fabricante. Do outro lado, um servidor compara a assinatura com uma base de conteúdos conhecidos e responde o que estava passando.
A finalidade declarada é recomendar conteúdo e medir audiência. A alegação das autoridades do Texas é que esses dados também são vendidos a anunciantes, o que as fabricantes contestam.
O que aconteceu
| Data | Fato | Fonte |
|---|---|---|
| 6/2/2017 | Precedente: a Vizio paga US$ 2,2 milhões à FTC e a Nova Jersey. A TV captava informação segundo a segundo do que aparecia na tela, de cerca de 11 milhões de aparelhos, e os dados eram vendidos a terceiros sem consentimento adequado. | FTC |
| 4 a 6/11/2024 | Estudo de UC Davis, UCL e UC3M apresentado no ACM IMC 2024, em Madri: primeira medição pública do tráfego de ACR de TVs Samsung e LG. | ACM IMC, arXiv |
| 18/12/2024 | A UC Davis divulga o estudo ao público. | UC Davis |
| Dez/2025 | O procurador-geral do Texas processa Samsung, Sony, LG, Hisense e TCL por coletar dados de ACR sem consentimento informado. | The Record, MediaNama |
| 26/2/2026 | Acordo com a Samsung: só coletar e processar dados de ACR de texanos com consentimento expresso, com telas de aviso e escolha. | Texas AG, The Record |
| 27/2/2026 | O Olhar Digital publica guia com os menus em português para desligar o recurso na Samsung e na LG. | Olhar Digital |
| 11/5/2026 | Acordo com a LG submetido ao tribunal do condado de Bell: consentimento afirmativo expresso, aviso na TV e forma simples de recusar. Sujeito à aprovação judicial. | MediaNama, Texas AG |
| Jun/2026 | Sony, Hisense e TCL aparecem como casos em andamento. Não achamos fonte posterior. | MediaNama |
O que se sabe e o que não se sabe
Documentado por mais de uma fonte
- O ACR existe em TVs Samsung e LG e contata servidores de ACR em intervalos regulares (estudo; UC Davis).
- Com a TV usada como tela por HDMI, o tráfego de ACR foi alto: da mesma ordem do da TV por antena e, no caso da LG, de 16 a 19 vezes o da TV ociosa (nosso cálculo sobre as tabelas do estudo).
- Desligar o serviço de “informações de visualização” eliminou o contato com os domínios de ACR nos dois países (estudo).
- O Texas processou cinco fabricantes, e Samsung e LG já fecharam acordo (Texas AG, The Record, MediaNama).
Não se sabe, ou depende de teste
- O que viaja dentro do tráfego. Ele é cifrado e o estudo não o abriu. Dizer que “a tela da reunião foi enviada” não está provado. O que está provado é que há envio periódico a servidores de ACR enquanto o HDMI está em uso.
- O Brasil. O estudo mediu EUA (Califórnia) e Reino Unido, uma TV por marca, em testes de uma hora.
- Outras marcas. Sony, TCL e Hisense não foram medidas no estudo.
- Firmwares atuais. O comportamento pode ter mudado depois dos acordos e das atualizações.
- Retenção e uso. Quanto tempo o fabricante guarda e para quem repassa: só há alegações, não decisão de mérito.
E no Brasil? Existe e ninguém mediu, ou não acontece?
É a pergunta que o assunto deixa em aberto. As três hipóteses abaixo são compatíveis com o que está publicado hoje.
| Hipótese | O que sugere isso | O que falta |
|---|---|---|
| 1. Existe aqui e ninguém mediu | Guias do Olhar Digital e do Canaltech descrevem menus em português nas mesmas marcas (“Serviços de Informações de Visualização” na Samsung, “Live Plus” na LG). Canaltech e Xataka Brasil dizem que vem ativado por padrão, mas em termos gerais. | Captura de tráfego de uma TV comprada no Brasil. |
| 2. Existe, mas com versão regional diferente | O estudo mostrou que Reino Unido e EUA usam domínios e comportamentos diferentes (por exemplo, canais FAST). Regionalizar é plausível. Inferência nossa. | Comparar tráfego Brasil, EUA e Europa. |
| 3. Existe, mas só liga com consentimento ativo | Nenhuma fonte brasileira confirma. Os acordos do Texas passaram a exigir consentimento expresso, mas valem para o Texas. | Ver a tela de configuração inicial e o tráfego logo após o primeiro uso. |
Só uma medição responde, e ela é barata: algumas horas de captura de rede em uma TV de teste. A seção sobre o firewall mostra como.
Perguntas em aberto que este caso levanta
Técnicas
- A TV usada como monitor envia assinaturas do que o notebook mostra (reunião por vídeo, slides, planilhas)? Quanto vira assinatura e quanto fica na TV?
- Uma atualização de firmware pode religar o recurso ou mudar o nome do menu? O Olhar Digital avisa que sim, e recomenda conferir após cada atualização.
- A configuração é por TV ou por conta do fabricante? Dá para gerir 50 TVs em escala?
- O bloqueio por DNS ou firewall funciona sem quebrar a TV? As mesmas dúvidas valem para projetores, painéis de recepção e sinalização digital.
Políticas e regulatórias
- LGPD (Lei 13.709/2018): uma imagem de tela pode conter dado pessoal de clientes e de terceiros. Quem é o controlador, a empresa dona da TV, o fabricante ou os dois? Qual é a base legal? Não encontramos manifestação da ANPD sobre o tema, e isso é pergunta para o jurídico, não conclusão.
- Existe processo parecido no Brasil (Senacon, Procon, Ministério Público)? Não verificamos.
- Em setores com sigilo (advocacia, saúde, bancos, governo), o recurso é compatível com o sigilo profissional?
- TV doméstica em sala corporativa viola a política interna de TI e de compras?
Comerciais
- Quem lucra? O Texas alega venda de dados a anunciantes. Qual é o modelo de receita de uma TV barata?
- O contrato de confidencialidade com clientes cobre um equipamento que envia dados a um terceiro?
- O contrato com o fornecedor de TV e audiovisual tem cláusula de dados, auditoria e desligamento do recurso?
- O seguro cibernético pergunta pelo inventário de dispositivos? Quem prova controle das salas ganha pontos em concorrências que exigem segurança.
Outras
- Reputação: a manchete “a TV da empresa X coleta o que o cliente mostra” não depende de a coleta ter sido provada.
- Salas de terceiros: hotéis, coworkings e salas alugadas têm TVs que você não configura.
- Home office: a TV da sala usada como segundo monitor.
- Tema vizinho: pesquisadores já analisam o que as TVs enviam, e fornecedores de IA já mudam regras no meio do caminho (veja o caso do Claude e da engenharia reversa).
Visão executiva: risco, decisão e 30 dias
Risco. O risco não depende de a coleta acontecer no Brasil. Depende de a empresa não conseguir provar que não acontece. Uma TV de sala de reunião é um computador conectado à rede, com um recurso que pertence ao fabricante e não ao contrato que você assinou com o cliente. Os riscos são de confidencialidade, de LGPD e de reputação, e quem responde é a empresa que escolheu o equipamento.
Três perguntas para a segunda-feira
- Quantas TVs e telas conectadas existem nas salas e quem as configurou?
- O recurso de informações de visualização está desligado, e alguém conferiu depois da última atualização?
- Que conteúdo sigiloso já passou por essas telas?
O que decidir nos próximos 30 dias
- Inventário de TVs, projetores e painéis, com responsável.
- Padrão de configuração (recurso desligado, publicidade por interesses desligada) e quem confere.
- Rede separada para esses aparelhos, com registro de tráfego.
- Regra para sala com assunto sigiloso: monitor corporativo sem sistema inteligente, no lugar da TV doméstica.
- Uma medição de tráfego em uma TV de cada modelo, para trocar suposição por evidência.
Aplicação comercial
- Contrato: NDAs e contratos de segurança com clientes costumam falar de sistemas e pessoas, e raramente de equipamento de sala. Vale rever a cláusula e, em novas compras, exigir documentação do fluxo de dados do fabricante.
- Concorrência: poder dizer ao cliente “nossas salas têm inventário, recurso desligado e tráfego monitorado” é diferencial em licitações e auditorias.
- Seguro: prepare o inventário de dispositivos antes de o seguro pedir.
- Marca: a cobertura da imprensa ao caso do Texas mostra que o tema vira manchete mesmo sem condenação.
Visão operacional
- Responsável: um dono para o parque de telas (TI ou facilities), com substituto.
- Rotina: checklist de configuração na entrada de cada TV e depois de cada atualização.
- Compras: exigir configuração prévia ou modelo corporativo. Não aceitar TV de varejo sem revisão.
- Pessoas: orientar que reuniões sigilosas não usem a TV doméstica nem TVs de terceiros sem a configuração conferida.
- Continuidade: se a TV perder a internet por causa do bloqueio, a sala continua funcionando como tela? Teste antes.
Visão de infraestrutura
- Rede: VLAN própria para TVs e aparelhos de sala, sem acesso à rede interna. Detalhes na seção do firewall.
- Nuvem e terceiros: o servidor de ACR é infraestrutura do fabricante, em nuvem de terceiros. O estudo localizou servidores em Londres, Amsterdã, Nova York e nos EUA, o que também traz a pergunta de onde os dados residem.
- Dependências: algumas funções da TV (atualização, aplicativos) precisam de internet. Bloquear tudo pode quebrá-las.
- Inventário: DHCP e endereço físico (MAC) ajudam a achar TVs que ninguém registrou.
Visão de segurança: prevenir, detectar, responder
São boas práticas e recomendações nossas, não resultados do estudo.
| Controle | Ação |
|---|---|
| Prevenir | Desligar o recurso de informações de visualização e a publicidade por interesses. Rede separada. Bloquear no firewall os nomes de ACR conhecidos e os que a sua medição achar. Monitor sem sistema inteligente em sala sigilosa. |
| Detectar | Registrar consultas de DNS e conexões da VLAN das TVs. Alertar quando uma TV contatar um nome novo ou mantiver contato periódico com servidor de terceiro. Reconferir após atualizações. |
| Responder | Se houver evidência de envio indevido: desligar o recurso, bloquear, guardar os registros, avisar o jurídico e o encarregado de dados (DPO) e avaliar se há cliente a notificar. |
Tecnologia: como o ACR funciona por dentro
1. Captura
Segundo o estudo, que cita a documentação das próprias fabricantes, a LG captura quadros de imagem a cada 10 milissegundos e a Samsung, a cada 500 milissegundos. O ACR pode usar imagem, áudio ou os dois. A captura acontece dentro da TV, depois que o sinal chega ao processador do aparelho. Por isso a fonte pode ser antena, canais gratuitos da própria TV (FAST), HDMI ou outra. Inferência nossa para o motivo de o HDMI ser capturado: a imagem passa pelo sistema da TV antes de aparecer na tela.
2. Impressão digital (fingerprint) e marca d’água
Há dois métodos gerais de reconhecimento. Na impressão digital, o aparelho calcula uma assinatura a partir do próprio conteúdo e não precisa de nada embutido no vídeo. Na marca d’água, o emissor insere etiquetas invisíveis na transmissão (canal, programa, horário), que o aparelho só lê. O estudo trata as assinaturas como hashes e lembra que hash não torna o dado anônimo por si só.
3. Envio em lote
Os autores observaram tráfego da LG a cada 15 segundos e da Samsung cerca de uma vez por minuto, e inferem que os quadros são agrupados e enviados em lote. A Samsung enviou até cerca de duas vezes mais dados e com maior frequência que a LG. Esses intervalos são inferência dos autores, não documentação.
4. Comparação no servidor
O servidor compara as assinaturas com a base de referência e devolve ou registra o que foi identificado. O que fica guardado e por quanto tempo o estudo não mostra, porque o tráfego não foi decifrado.
5. Protocolos: o que se sabe e o que não se sabe
- Confirmado: o tráfego é cifrado, vai a nomes de servidor (domínios) específicos e tem padrão periódico.
- Não informado no estudo: portas, versão de TLS e formato da carga. O estudo não decifrou o tráfego.
- Esperável, a confirmar no seu teste (inferência nossa): consulta de DNS para resolver o nome, conexão TLS (em geral HTTPS, porta TCP 443) e o nome do servidor visível na negociação TLS (SNI). É por esses sinais, e não pelo conteúdo, que a empresa consegue observar o ACR.
6. Domínios observados no estudo
| Marca | Região | Domínio |
|---|---|---|
| LG | Reino Unido | eu-acrX.alphonso.tv (X muda com o tempo) |
| LG | EUA | tkacrX.alphonso.tv (X muda com o tempo) |
| Samsung | Reino Unido | acr-eu-prd.samsungcloud.tv, acr0.samsungcloudsolution.com, log-config.samsungacr.com, log-ingestion-eu.samsungacr.com |
| Samsung | EUA | acr-us-prd.samsungcloud.tv, log-config.samsungacr.com, log-ingestion.samsungacr.com |
Os domínios foram achados pelo termo “acr” no nome. Segundo o estudo, os da LG pertencem à Alphonso, que opera a LG Ad Solutions. A lista varia por região, então não presuma que a do Brasil é igual: meça.
7. Quanto tráfego, em cada uso da TV
| Uso da TV | Tráfego de ACR (estudo) |
|---|---|
| Antena (TV linear) | Alto |
| HDMI (notebook, console) | Alto, da mesma ordem do da antena |
| Canais FAST | Baixo no Reino Unido; alto nos EUA |
| Aplicativos de streaming (OTT) e espelhamento de tela | Baixo (bem menor, mas não zero) |
| TV ociosa | Baixo, com contato constante de base |
Estar logado ou não na conta do fabricante não mudou o tráfego. Os autores supõem que o ACR use o identificador de publicidade da TV ou o endereço IP, mas não testaram.
8. Tipos de recurso e onde ligar ou desligar
O estudo desligou o ACR junto com outras opções de privacidade. Segundo os autores, o ACR é desligado especificamente pelo serviço de informações de visualização. Os demais itens são recursos de publicidade e personalização que costumam vir no mesmo grupo de menus.
| Recurso | Samsung | LG |
|---|---|---|
| ACR (informações de visualização) | Serviços de Informações de Visualização | Live Plus; acordo de informações de visualização |
| Publicidade por interesses | Publicidade com base em interesses; Melhorar anúncios personalizados | Publicidade baseada em interesses e entre dispositivos |
| Rastreamento de anúncios | Não rastrear (“Do not track”) | Limitar rastreamento de anúncios; Não vender minhas informações pessoais |
| Recomendações e promoções | Serviço de personalização; receber novidades e ofertas | Recomendação de conteúdo; promoções na tela inicial; recomendação por IA |
| Voz | Reconhecimento de voz | Acordo de informações de voz |
9. Limites do estudo
Duas marcas, dois países, uma TV por cenário, testes de uma hora e domínios achados por uma heurística. Os autores reconhecem essas limitações. Há também uma inconsistência interna: o texto diz que não há ACR em Netflix e YouTube, e as tabelas mostram tráfego baixo, mas não nulo. Usamos os números das tabelas.
Monitorar e bloquear no firewall da empresa
É possível, com limites. O firewall não enxerga o conteúdo, que é cifrado, mas enxerga para onde a TV fala, com que frequência e quanto. Isso basta para confirmar se há ACR em atividade e para impedi-lo.
O que dá para monitorar
| Tipo de monitoramento | O que mostra | Limite |
|---|---|---|
| Registro de DNS | Os nomes que a TV tenta resolver. É o jeito mais simples de ver “acr” no nome. | TV com DNS próprio (fixo) escapa do seu resolvedor. |
| Registro de conexões do firewall | Destino, porta, volume e horário de cada conexão da VLAN da TV. | Em nuvem de terceiros, o IP muda. Use o nome, não o IP. |
| NetFlow, IPFIX ou sFlow | Volume por conexão e periodicidade. Revela contato a cada 15 s ou 60 s, o padrão descrito no estudo. | Não mostra o nome do servidor. |
| Nome do servidor na negociação TLS (SNI) | O domínio de cada conexão HTTPS, em firewalls com inspeção ou com Zeek e Suricata. | Pode ser ocultado se a TV adotar ECH (Encrypted Client Hello). Aí restam DNS e IP. |
| Captura de pacotes (tcpdump, Wireshark) | Prova técnica em laboratório: lista de nomes, portas e ritmo. | Exige porta espelhada. Não serve para vigilância contínua. |
| Alertas no SIEM | Aviso quando a TV contata um nome novo ou mantém contato periódico com terceiro. | Exige regra e dono da resposta. |
O que não dá: ler o conteúdo. Abrir o tráfego (interceptação com certificado próprio) normalmente não funciona com aparelhos que validam o certificado do servidor (inferência nossa; o estudo propõe a análise como trabalho futuro) e levanta questão legal. Para a decisão da empresa, não é necessário.
Teste de laboratório em cerca de meio dia
Copie o desenho do estudo: mesma TV, os cenários, ligado e desligado.
- Coloque a TV em uma VLAN isolada e espelhe a porta dela para um computador de captura.
- Linha de base: TV ociosa por 1 hora.
- HDMI: notebook com uma apresentação por 1 hora, sem apps de streaming.
- Comparação: repita o passo 3 com streaming (OTT) e espelhamento.
- Desligar: desative o recurso de informações de visualização, reinicie a TV e repita ociosa e HDMI.
- Ler o resultado: liste os nomes e o ritmo. Procure nomes com “acr” e contato regular. O critério do estudo: depois de desligar, o contato com esses nomes deve cessar.
# captura na porta espelhada (eth1), filtrando pelo IP da TV sudo tcpdump -i eth1 -w tv.pcap host 10.20.30.15 # nomes consultados (DNS), com o tempo relativo tshark -r tv.pcap -Y "dns.flags.response==0" \ -T fields -e frame.time_relative -e dns.qry.name # servidores contatados por HTTPS (SNI), com o IP de destino tshark -r tv.pcap -Y "tls.handshake.type==1" \ -T fields -e frame.time_relative -e ip.dst \ -e tls.handshake.extensions_server_name # contar nomes que contêm acr tshark -r tv.pcap -Y "dns.flags.response==0" -T fields \ -e dns.qry.name | grep -i acr | sort | uniq -c | sort -rn
Registre modelo, versão do sistema e data do teste. Um resultado vale para aquele modelo naquela versão.
Como bloquear
Nível 1, na TV: desligar o recurso no menu. É o que o estudo documentou como suficiente para cessar o contato. Pode ser religado por atualização.
Nível 2, no DNS: filtro de DNS do firewall ou do resolvedor interno (RPZ, Pi-hole, AdGuard Home ou o recurso equivalente do firewall) com os nomes de ACR. Para não ser contornado, a VLAN da TV só deve alcançar o seu resolvedor: redirecione ou bloqueie DNS (portas 53 e 853) para qualquer outro destino e bloqueie os provedores públicos de DNS por HTTPS.
Nível 3, no firewall: regra de saída por nome (objeto FQDN) e política de negar por padrão para a VLAN, liberando só o necessário.
# exemplo genérico, VLAN das TVs 10.20.30.0/24 (validar no laboratório) permit 10.20.30.0/24 -> resolvedor-interno dns (53) deny 10.20.30.0/24 -> any dns (53), dot (853) log deny 10.20.30.0/24 -> fqdn *.alphonso.tv log deny 10.20.30.0/24 -> fqdn acr-*.samsungcloud.tv log deny 10.20.30.0/24 -> fqdn *.samsungacr.com log deny 10.20.30.0/24 -> fqdn acr*.samsungcloudsolution.com log deny 10.20.30.0/24 -> rede-interna (qualquer) log permit 10.20.30.0/24 -> internet (somente o que a sala precisa) deny any log
Nível 4, sem rede: se a TV é só tela de HDMI, deixá-la sem Wi-Fi nem cabo de rede é o bloqueio mais forte. O custo é perder atualizações e aplicativos.
Cuidados
- Bloqueie nomes específicos, não domínios inteiros. O mesmo domínio-pai pode servir outras funções da TV.
- O nome do Brasil pode ser outro. No estudo, o Reino Unido e os EUA usam nomes diferentes. Use o seu teste para achar os locais.
- A TV pode reagir: perda de funções, mensagens de erro ou novas tentativas por outros nomes. Teste antes de aplicar em todas as salas.
- Bloquear não substitui desligar o recurso e tratar a questão contratual e de LGPD.
- Repita o teste depois de cada atualização de firmware.
Monitoramento contínuo
- Alerta para qualquer nome novo contatado pela VLAN das TVs.
- Relatório semanal de volume por TV. Uma TV que dobrar o volume sem motivo merece olhar.
- Alerta para contato periódico (a cada 15 s ou 60 s) com servidor externo fora da lista permitida.
- Reteste agendado, por exemplo a cada trimestre e depois de atualizações.
Configuração e prevenção: passo a passo
Os nomes dos menus mudam com a marca, o modelo e o ano. Os caminhos abaixo vêm dos guias brasileiros citados e do estudo, e devem ser conferidos na sua TV.
Samsung (Tizen)
- Menu ou Configurações, Todas as Configurações, Geral e Privacidade, Termos e Privacidade.
- Desligar Serviços de Informações de Visualização.
- Desligar Publicidade com base em interesses e o serviço de personalização. Ativar “Não rastrear”, se existir.
- Em Configurações, desativar o reconhecimento de voz, se não for usado.
LG (webOS)
- Todas as Configurações, Geral, Sistema, Configurações Adicionais: desativar Live Plus.
- Em Anúncios, ativar Limitar Rastreamento de Anúncios.
- Em Suporte, Privacidade e Termos: ativar “Não vender minhas informações pessoais” e desativar os acordos de informações de visualização e de publicidade por interesses.
- Desativar promoções na tela inicial e recomendações de conteúdo.
Sony, TCL, Hisense e outras marcas: não encontramos caminho verificado. Procure por “informações de visualização”, “ACR” ou “publicidade” em Privacidade, e meça o tráfego do mesmo jeito.
Checklist para a empresa
- Antes de comprar: pedir ao fornecedor a documentação do fluxo de dados e um modelo corporativo ou de sinalização, que costuma ter menos recursos de varejo. Não verificamos se isso vale para todas as linhas.
- Na instalação: não aceitar os termos padrão sem ler, desligar os recursos acima e registrar quem configurou e quando.
- Em sala sigilosa: usar monitor sem sistema inteligente ou deixar a TV sem rede.
- No dia a dia: preferir apresentar por sistema corporativo de reunião, em vez de plugar o notebook em uma TV doméstica.
- Depois de atualizar: conferir o menu de novo.
- Em salas de terceiros: não presumir. Leve o seu equipamento ou evite conteúdo sensível.
Se você é usuário comum
- Procure nas configurações da sua TV por “informações de visualização” ou “Live Plus” e desligue.
- Ao ligar uma TV nova, leia as telas de consentimento em vez de aceitar tudo.
- Se usa a TV como monitor de trabalho, trate-a como um computador conectado.
- Desligue também a publicidade por interesses e as recomendações.
Termos usados nesta matéria
ACR · HDMI · Hash (impressão digital) · DNS · VLAN · Firewall · Criptografia · HTTPS · Plataforma de terceiros · Vazamento de dados
Fontes
Primárias
- Anselmi et al., ACM IMC 2024 (4 a 6/11/2024): Watching TV with the Second-Party: A First Look at Automatic Content Recognition Tracking in Smart TVs · versão no arXiv
- Procurador-geral do Texas, 26/2/2026: acordo com a Samsung
- Procurador-geral do Texas: acordo com a LG (a página não traz data; o acordo foi submetido em 11/5/2026, segundo a MediaNama)
- FTC, 6/2/2017: Vizio pagará US$ 2,2 milhões
Jornalísticas e de especialistas
- UC Davis, 18/12/2024: Your smart TV is watching what you watch
- The Record, 27/2/2026: Samsung updates ACR privacy practices after Texas action
- The Record: Texas sues 5 smart TV makers over ACR tech
- MediaNama, 6/2026: What’s inside the Texas Attorney General’s lawsuits
- Olhar Digital, 27/2/2026: guia para impedir o rastreamento (em português)
- Canaltech, 11/7/2025: como desativar na Samsung e na LG (em português)
- Xataka Brasil, 6/1/2026 (em português)
- Wikipedia: Automatic content recognition (contexto sobre impressão digital e marca d’água)
Discussões técnicas (contexto, não fonte de fatos)
Comunidades como r/pihole, r/privacy e o Hacker News costumam trocar listas de nomes de ACR para bloqueio. Confira qualquer lista no seu laboratório antes de aplicar.
Notas de leitura
- Acusações: o que o Texas descreve nos processos são alegações do estado. A Samsung afirma que sua política original seguia as regras do Texas e que suas TVs “não espionam” os clientes.
- Fonte única: detalhes de petição que só aparecem em uma reportagem (números de aparelhos e perfis de dados sensíveis) ficaram fora das conclusões.
- Status dos casos: o estado de Sony, Hisense e TCL é o das fontes mais recentes que achamos (junho/2026) e pode ter mudado.